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Dulce Rodrigues, escritora

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LENDA DA CEREJEIRA

Nesta época do ano, as cerejas fazem a sua aparição nas lojas e supermercados, anunciando com as suas cores quentes e garridas que já estamos no Verão. Vou, por isso, contar-vos a lenda da cerejeira, uma árvore muito apreciada no Japão e, em particular, pelos samurais.

Japanese cherry tree
Cerejeira do Japão no Jardim Botânico de Genebra

Segundo essa lenda, vivia há muitos anos em Iyo um samurai muito velho; tão velho que já nem tinha família nem amigos vivos. O único ser a que ainda podia dedicar o seu amor era uma velha cerejeira que os seus antepassados tinham plantado e à sombra da qual o velho samurai tinha brincado enquanto criança. A mesma árvora em cujos ramos os membros da sua família tinham pendurado, durante gerações e gerações, pequenos pedaços de papel onde haviam escrito belos poemas de louvor à velha árvore.

Mas um dia, ó tristeza, a velha cerejeira começou a definhar e depois morreu. Os vizinhos do samurai vieram plantar uma nova cerejeira, mas para o velho samurai a morte da árvora era um sinal de que a sua vida também estava a chegar ao fim.

Então, dirigiu-se à cerejeira cujo tronco ainda se erguia altaneiro no meio do jardim familiar e fez um último desejo: a cerejeira deveria florir ainda uma última vez. E o velho samurai prometeu que se o seu desejo fosse realizado, esse seria o momento para ele próprio morrer também. A velha cerejeira voltou a dar flor, embora fosse Inverno, e ali mesmo sob os seus ramos o velho samurai cometeu harakiri. O sangue ensopou o chão e chegou às raízes da velha cerejeira, e ela floriu uma vez mais.

Segundo ainda a lenda, desde esse dia a velha cerejeira dá flor todos os anos pelo aniversário da morte do samurai. Dizem que é no sexto dia do primeiro mês do ano, bem mesmo no coração do Inverno.

Havia uma cerejeira no jardim da antiga casa dos meus pais que dava tanto fruto que tínhamos de pôr suportes para aguentar com o peso dos ramos. Pergunto-me se a árvore ainda existe...

© Dulce Rodrigues

 

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